O eterno retorno do mesmo...

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"
- Friedrich Nietzsche (A Gaia Ciência)

sábado, 10 de maio de 2008

Escrita: proposta e esquizofrenia

Quando criam um blog, as pessoas costumam já haver pensado previamente em seu objetivo. Por meu lado, não sei o que escreverei, sei apenas o que não escreverei. Não escreverei minhas teses principais, tampouco postarei análises demasiado geniais. A internet infelizmente ainda não funciona como publicação científica legitimadora dos direitos autorais e descobertas científicas, ao menos não sem muita burocracia. Não, não escreverei isso.

Tampouco escreverei mini-narrativas – minhas habilidades estão fora desse campo literário. Contos e poemas... De vez em quando, algo non-sense, sempre uma experiência interessante... Política? Quem sabe...

Paro aqui com essa exposição socrática de “só sei que nada sei” e passo ao lado que me irrita um pouco na escrita, mas do qual nenhum de nós, intelectuais [em construção ou não] pode se livrar: a esquizofrenia. Escrevemos para que alguém leia, nem que sejamos nós mesmos, num futuro razoavelmente próximo, a fazê-lo. Mas a relação escrita-leitura não é simultânea, exceto em raras exceções. Estamos a todo instante apenas expondo nossas idéias para nós mesmos. Isso é semi-ilógico. Ao mesmo tempo que reforça aquilo que pensamos, de certo modo cria uma criatura imaginária contida naquele pedaço de papel, ou no próprio computador, que a todo instante nos mostra se o que escrevemos está apropriado ou não. Uma criatura que nos escuta sempre. Um reflexo de nós mesmos. E eis que finalmente começamos a divagar e, quando percebemos, já estamos jogando o “jogo dos pontinhos” com essa criatura psicológica que criamos. Uma criatura metafísica? De maneira alguma; está dentro de nós mesmos. Um amigo imaginário tardio? Deprimente e reconfortante.

Fim temporário do embate Electra X Aline.

2 comentários:

1 disse...

Eu sou tão indeciso que quando consigo decidir o que não quero, já me dou por satisfeito.
E viva a esquizofrenia!

Nindë Inglorian disse...

Realmente, esquizofrênicos somos. Amei o seu blog. Várias questões profundas em que buscaremos sabedoria constante e com enorme afinco. Quem sabe um dia irei eu tmb ter um grande saber?
Pri